Na noite em que coloquei um ponto final, quando o dia amanheceu eu estava horrível, minha cabeça doía, e com certeza, eu não cheirava bem. Havia bebido bem mais do que o necessário, eu havia dito tudo que precisava para a única pessoa que importava. Eu estava deixando tudo para trás quando, uma semana depois resolvi dar um passo pra trás, talvez apenas checar o terreno, lá encontrei a certeza que faltava. Pois bem, eu cavei o mais fundo que consegui, durante meses a fio, a cova mais profunda, do tamanho de tudo que eu tinha parar enterrar, eu a cobri, ajeitei as coisas, rezei por aqueles que estavam partindo, virei a costas eu continuei, eventualmente praguejando cada lembrança, amaldiçoando cada espirito que encontrava vagando, imaginado que ser apenas parte do luto. Foram meses, um funeral digno de todos aqueles que enterrei na enorme cova. Porém no momento em que parti, nada disso deveria me importunar mais, mais nenhuma memoria nítida, nenhum tom de voz para ser reconhecido, nenhuma lembrança, pensamento ou comoção.
Malditos sonhos, tão significativos e cheios de emoções. Tudo aquilo que foi perdido a tanto tempo, eu sempre gostei de pensar que tudo tinha a ver comigo, como se eu fosse o motivo, a justificativa. Hoje não consigo fugir da sensação, olhos assombram minha mente, tão serenos e comunicativos. Eu olho para trás e vejo apenas um amontoado de erros. Não sei o que isso tudo significa, nem porque continua a soar tão importante. Procurei diversas respostas a respeito disso, ao longo do tempo. Algo incrustado na minha mente protegem essas imagens, me envergonho disto, soterro tudo o mais fundo que consigo, mas continua a vir a tona, só que não existe o que possa ser feito. Eu vejo tudo a esse respeito, de repente algo explode dentro de mim e não consigo fugir do pensamento.
Estou pagando por cada maldito erro. Lentamente, meu subconsciente clama, mas não faço ideia do que fazer. Tomei decisões das quais me arrependo, mas tudo isso está no passado agora, e justamente pelo fato de ser passado, nada disso deveria ter mais importância, eu tratei cada maldito acontecimento, me mediquei contra isso, pois é a representação, a constatação da minha doença, qualquer coisa sobre isso me envenena, alimentando cada pesadelo que tenho. E não deveria sentir nada me faltar, nada doer, porque passou, eu velei aquilo tudo, mas continua a sentir como se não tivesse sido o suficiente, ou verdadeiro. O tempo passa, e há sempre fantasmas, reconstruindo cenas que nunca aconteceram, minha mente está uma bagunça, o passado e o presente em conflito. Estou me transportando ao passado sem querer estar lá.
29 de dezembro de 2014
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