O lugar onde adentrei encostando a porta atrás de mim, foi para onde fui, atender a chamada. Lembrava um corredor, embora fosse um quarto, estreito, com janelas grandes, portas de vidro nas extremidades da construção retangular. Estava mal iluminado, a luz que havia vinha de fora era proveniente de uma janela que dava para um quarto ao lado, onde havia uma claraboia no teto, dentro do quarto somente plantas, vasos em todas as paredes, contendo samambaias, no chão, vasos de plantas de folhas verdes. Na ligação eu tentava disfarçar a frustração da minha voz. A janela do quarto, onde eu estava, era de frente para uma outra janela que o quarto da claraboia tinha, do outro lado na penumbra se encontrava ele, parado de frente para mim, ainda surpreso com o que tinha te dito, antes de sair apressada com o toque do celular. Ambos na meia-luz, frente a frente, separados por um quarto claro. Eu dei meia volta, tentando me concentrar no que falava e no que ouvia, tentando ri como se não houvesse ninguém a me observar do outro lado. Mas pude sentir, o momento em que ele decidiu se mover, decidido a ir até onde eu estava. Caminhei em direção a porta, enquanto dava uma desculpa para a pessoa do outro lado do telefone. Eu estava do lado da porta, encostada na parede, quando ele entrou, logo depois eu desliguei a ligação. Naquele instante tudo a minha pareceu borrar, sair de foco, na minha memoria restou apenas confusão, tento me lembrar com exatidão o que ouvi dele, mas não consigo, é como se houvesse uma cortina translúcida a encobrir minhas lembranças.
Ele se aproximou de mim, falou sobre jamais ter partilhado o que tivemos, momentos que seriam apenas de nós dois, para sempre, e não iriam se repetir jamais. Cada membro do meu corpo concordava com o que dizia, enquanto o som da voz dele ficava cada vez mais próxima, tão perto que a cada instante o nervosismo que crescia dentro de mim, tentando me fazer reunir forças para sair dali, o mais rápido possível, mas eu não consegui, e no instante que antecedeu o encontro de nossos lábios, apenas um pensamento me veio a mente, ''… e aqui estamos, novamente''. Nos instantes em que nossos lábios se distanciavam, ele continuava a falar e falar, trazendo tudo de volta, traçando mais uma, das tantas, rotas de fuga. Eu não conseguia calá-lo, era incapaz de dizer uma só palavra. Eu ouvia sua voz, sentia o toque das suas mão no meu corpo, e não havia ali nenhuma chance de nos separarmos novamente, apenas ânsia por uma aproximação cada vez maior. A se aproximar, o som de um carro se fez ser ouvido, instantes depois, ou não, uma voz vindo, do outro lado da porta, que havia na outra extremidade do quarto em que estávamos, de frente para nós, nos separamos assustados, ao reconhecê-la. Ele seguiu em direção a outra porta, e eu sai pela que havíamos entrado. Nossa separação havia chegado no compromisso que ele havia assumido com outra pessoa.
Caminhando a seu encontro, que havia sido previamente marcado por um recado direcionado a mim, quando em um corredor escuro, sinto, de repente, seu braço envolver minha cintura, me puxando em sua direção, ele sorri e me beija, não só a familiaridade como também a intimidade demonstrada em seus movimentos, era assustadora, tudo parecia dizer que o tempo não havia passado, que tudo estava como deveria ser. Sou guiada até um quarto próximo. Tudo que quero dele, se resume a simplesmente tê-lo, corpo e alma, tê-lo da forma mais próxima que existe, é o que nos dispomos a fazer, até que eu finalmente o empeça de continuar, com o que quer que seja aquilo tudo que iniciamos. A verdade é que não poderíamos prosseguir, independente de quem tinha sido o primeiro a cometer o erro de se afastar, tínhamos tomado decisões que não poderiam ser apagadas com nosso reencontro. Depois de dizer isso a ele, eu pude ver seu coração se partir, como se estivesse diante de mim, as lágrimas que brotaram naqueles olhos sempre tão brilhantes e serenos, causou o mesmo em mim, resultando por fim, em dois corações dilacerados. E depois de tantos anos, me perguntei novamente, o que é o amor, pois ele parece residir na distância, na impossibilidade, nos olhos terrivelmente tristes e inocentes daquele menino que deixei naquele quarto, e que hoje permanece nas profundezas dos meus sonhos, intrínseco no meu subconsciente, que parte meu coração ao acordar e que ignoro no decorrer do dia.
29 de dezembro de 2014
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