Muitos
anos e desculpas depois, acho que me cansei. Sempre tive que lutar muito com o
amor que permaneceu quanto todos os outros se foram, me lembrando constantemente
do motivo de não estarem presentes. Mas com você eu cansei, porque lutar por
você se tornou um insulto a mim mesma, uma afronta ao meu amor próprio.
Hoje eu penso muito em quanto tempo determinadas pessoas estarão na minha vida, porque descobri que da mesma forma que existe um movimento que converge, há outro no sentido oposto, assim naturalmente mesmo. Penso também no quanto alguém é realmente especial para que lutemos contra o movimento da dinâmica da vida. Se foi o tempo em que as amizades não tinham prazo de validade. Você foi a última, a última a quem a vida me uniu inocentemente, me fazendo acreditar que seria para sempre. Mas o “pra sempre” é sempre um retrato estático e feliz, em que a vida não muda, em as pessoas não mudam, em que as circunstâncias permanecem as mesmas. Reproduzimos esse retrato durante anos, nos reencontrando religiosamente entre períodos rigorosamente estabelecidos por nos. O que me fez deixar de ter medo de te perder foi você, foi a sua falta de respeito com meus sentimentos, sentimentos nobres de amor e admiração que te dedicava. Parece estranho pensar que nos mesmos podemos ser os responsáveis pela perda de alguém. Inclusive, acho que todas as veze que permiti que passasse por cima de mim como um rolo compressor, acabei sendo eu a engrenagem desse ciclo. Eu perdi o amor por você e você o respeito por mim.
Como em todo relacionamento com falha de comunicação e empatia,
o motivo no fim, era sempre esquecido, embora eu nunca tenha deixado de me
lembrar todas as coisas horríveis que disse, e depois todas as justificativas
que usava para as tê-la dito. Estranho me sentir como uma vítima, se até pouco tempo
atrás, eu mesma teria feito de tudo para que ficássemos bem, porque você pra
mim, era a melhor. Ir atrás, me permitir ser magoada por você novamente poderia
ser facilmente esquecido, superado, porque você esteve ao meu lado desde que
posso me lembrar, segurando minha mão, me abraçando forte enquanto eu chorava. E
eu me sentia tão forte com o modo com que falava de mim, me sentia tão
importante para você, quando depois você admitia que eu tinha razão. Um belo
contraste com o medo que eu sentia de continuar me posicionando, quando após dizer
o que eu pensava, você energicamente refutava, erguendo a voz e ficando vermelha.
Te achava tão forte, tão segura, eu me espelhava em todas suas virtudes e
justificava todas suas falhas, eu sentia te amar tanto, com tanta intensidade
que não permitia me imaginar distante.
No
final, você assumiu uma personalidade submissa que eu desconhecia, e como uma
pessoa determinada, até no erro, seguiu em linha reta, até que eu me cansasse
de observar. Acho que amadureci o bastante pra enxergar o transtorno predominante
que existe por trás de todas as coisas boas sobre você. Honestamente, por fim,
eu ri. E saber que você é a pessoa que mais sofre com todas essas atitudes
irrefletidas, fez com que nem ao menos brava com você eu conseguisse ficar.
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